A liberdade e o software livre

No texto sobre Stallman (leia), falei que o fundador da FSF tinha razão – tinha lógica – ao falar que “liberdade não é liberdade de escolhas”. Parece sem sentido e contraditório, como tinha falado, mas não é.


Desde de muito se tem essa noção de liberdade. Vou pegar a visão da era moderna, dos primeiro contratualistas, que é válida para explicar a ideia de liberdade no software livre.

No século 17, Thomas Hobbes já falava que o homem puramente livre – que faz o que bem entende, egocentrista – vive em um estado de natureza, que como o próprio Hobbes diz em Leviatã, “a vida do homem é solitária, miserável, sórdida, selvagem e curta” [1] nesse estado. O egocentrismo leva a isso. A negação da existência de uma interdependência de cada um com o outro, leva a perda da própria razão da convivência em sociedade, leva a uma “involução”[2] e uma ruína dos interesses coletivos e consequentemente, obviamente, do interesse individual, de cada um.

Quando Rousseau diferenciou a vontade geral da vontade de todos, da vontade da maioria[3], ele caracterizou bem o que muitos pensam sobre a liberdade no mundo da informática. “Eu quero usar o produto X e não me importo se é livre ou não pois o importante é funciona e satisfazer minhas necessidades”.

Para o francês do Contrato Social, a vontade da maioria nada mais é que a soma dos interesses particulares, não o do coletivo, não do interesse que todos tem em comum – como seria da vontade geral -, o que gera a mesma situação do estado de natureza hobbesiano.

Quando um indivíduo escolhe algo por benefício próprio, sem se importar com as consequências, o resultado é prejudicial para toda a sociedade e até para ele mesmo.




Sob a luz de Emmanuel Kant ainda podemos ver o quão Stallman tem razão. Kant diz que “é possível a vontade querer”, o homem livre é aquele que pode mudar, pois o escravo é aquele que não quer mudar, que não pode [4].

Quando pegamos alguns exemplos, percebemos que o pensamento de Kant está atualizado com o mundo digital. Se pegarmos por exemplo, um programa essencial, como o Flash Player, veremos que não temos escolha. Com a atual WEB, Flash é uma tecnologia necessária, obrigatória. Estamos dependente das vontades da Adobe, se eu quiser usar qualquer simples e as vezes necessário site, terei que usar um sistema que a Adobe desenvolveu o plugin Flash Player, não tenho escolha. Quem tem arquitetura ARM, por exemplo, não pode usufruir de um YouTube, por exemplo. O iPhone, que é um sucesso de vendas, agora, depois de anos, que foi anunciado um plugin compatível. Se eu quiser desenvolver um site é ainda pior, terei que comprar a solução da Adobe obrigatoriamente. Se tem solução semelhante? Tem, o Silverlight da Microsoft, que restringe as opções mais ainda.

Como falei no texto sobre Stallman, a lógica dele faz sentido, pois se cada um escolher por benefício próprio a tecnologia proprietária, todos iremos, inevitavelmente, ficarmos sem opções de escolhas. A liberdade de escolher ficar sem liberdade não é liberdade, não faz sentido, é um grande erro de muitos, que muitos comentem.

A falácia de dizer que esse discurso, o discurso de Stallman, e também meu, por que não?, é sem noção da realidade, sem aplicação no mundo prático, ou bobo, é uma injustiça. É claro que eu, de maneira alguma, estou falando para fazer um levante contra os softwares proprietários, parar de usá-los, usar um software livre semelhante mas não tão bom ou coisa parecida; eu sei que o âmbito do “dever-ser” é quase inatingível muitas das vezes, mas estou dizendo que em certas ocasiões o mundo de fato está errado, e que o software livre, o ideal de liberdade, deve ter prioridade para um benefício de todos, para o benefício de nós mesmos. É um grande erro deixar certas coisas como estão, pois dentro de uma lógica, de um contexto, o software livre é sim a melhor opção para todos e é a única opção que garante que qualquer um escolha o que bem entender.

Ah! Para não esquecer, já que falei no Flash Player, e mostrar como ter algo sem amaras é melhor, logo sairá o HTML5, que garantirá que todos acessem o que quiser na WEB 2.0, com qualquer máquina, com qualquer sistema, de qualquer arquitetura, sem precisar instalar nada. O “padrão livre” do HTML5 permitirá substituirmos o Flash e o Silverlight. Não é bom o poder de escolhas?



Referências
[1] HOBBES, Thomas. Leviatã. Editora Rideel. São Paulo, 2005. Página 76.
[2] Neologismo, pelo menos eu acho. Contrário de “evolução.
[3] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. Editora Martin Claret. São Paulo, 2006. Páginas 36, 37, 38 e 39.
[4] KANT, Emmanuel. Doutrina do Direito. Editora Ícone. São Paulo, 1993.

Um comentário:

  1. [...] não estava em seus planos, afinal, para um fundação que tem como objetivo uma internet mais independente, ficar nas mãos de uma megaempresa não é algo mais inteligente que se possa [...]

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