Por que o excesso de distribuições Linux deveria acabar… ou não

Eu mesmo falei, na minha página pessoal, o quanto a falta de escolha no mercado de consumo é ruim. Relembrando com o exemplo do sistema operacional líder, quando só se tem um único produto dominante, você não pode escolher o melhor custo-benefício, tendo que pagar um alto preço, ficar dependente das estratégias comerciais de uma única empresa e até mesmo possibilitando uma estagnação tecnológica.


Então Linux é melhor socialmente, economicamente e estrategicamente? Sim. Mas então, qual o problema de se ter um número incontável de possibilidades de escolha? É ter justamente um número incontável de escolhas.


O advento do software livre possibilitou-se algo que com o velho modelo fechado de desenvolvimento – e de negócio – não era possível tão facilmente, ter inúmeras opções de escolha.


Com o GNU/Linux não é diferente. Como disse Tiago E. De Melo em “A Revolução do Software Livre”, com as diversas distribuições existentes o usuário pode escolher a distribuição, dentre um número incontável, que atenda melhor suas necessidades.


Mas há um grande problema nas opções de escolha. Enquanto empresas, universidades, institutos de pesquisas, e outras entidades, escolhem suas distribuições pelo suporte profissional, pelas ferramentas disponíveis, pelas características próprias para o fim que necessita, até mesmo por acordos comerciais, o usuário comum, o ser humano que por vontade própria decide usar uma dentre as várias distribuições, pode ser influenciado por outros fatores.


Com base nas teorias de Barry Schwartz, professor do departamento de psicologia do Swarthmore College, fica fácil de perceber que as tantas possibilidades de escolha (não uma ou algumas, mais muitas) de distribuições Linux é ruim, fazendo o consumidor ficar infeliz , prejudicando seu senso avaliativo, diminuindo o fator prioritário para qualquer sociedade, a qualidade de vida - afinal, a busca da qualidade de vida deve ser a prioridade de qualquer sociedade, de qualquer Estado, de qualquer sistema econômico.


Em seu livro "O Paradoxo da Escolha. Por que mais é menos" o professor Schwartz afirma e mostra como a autonomia da pessoa humana, a liberdade de escolhas, está relacionada com a queda da qualidade de vida. Barry Schwartz, explicando "a busca da satisfação", idealizado pela economista ganhador do Nobel, Herbert A. Simon, diz que há pessoas "maximizadoras" e as que "buscam a satisfação". Enquanto os que buscam a satisfação são regidos pelo pensamento do suficientemente bom, os maximizadores são uma parcela significativa da população que nunca estão satisfeitas com a opção que escolhem, e nesse grande segmento da população é que as inúmeras possibilidades de escolha de distribuições Linux cai em uma armadilha que prejudica a própria ideia de ter muitas opções de escolha no GNU/Linux.


Barry Schwartz explica que existem fatores cruciais que agem nos maximizadores, como por exemplo os "custos de oportunidades", a "acomodação", as "expectativas".


O professor Schwartz fala que quanto maiores as oportunidades de escolha, maior a sensação de perda de uma oportunidade. Quando se escolhe uma opção, deixamos de lado muitos pontos positivos da escolha feita e ficamos pensando nos pontos positivos, que deixamos de aproveitar, das outras opções. É como se um usuário escolhesse o Ubuntu, com o ambiente Gnome, e ficasse pensando constantemente nas vantagens da distribuição Mandriva, nas ótimas ferramentas do KDE.


De acordo com prêmio Nobel, o psicólogo Daniel Kahneman, e seu colega, Amos Tversky, "o efeito psicológico da perda de oportunidade é muito maior do que o efeito dos ganhos da escolha". Como consequência se tem maior possibilidade de desapontamento ou mesmo arrependimento diante da escolha feita. Com tanta vantagens nas opções de escolha a expectativa é aumentada. O consumidor escolhe seu produto, no qual fez o sopesamento das vantagens e desvantagens, e diante de tantas opções, o sujeito escolhe, e suas expectativas irão ao chão, resultado da "acomodação". O efeito "acomodação" é que faz com que as vantagens da escolha feita logo seja esquecida. A pessoa se acostuma. Com outras opções, logo ela verá mais atrativos em outras opções e esquecerá, por acomodação, as vantagens do produto que ela escolheu.


Então alguém pode perguntar: então o Linux por ter muitas distribuições é prejudicial para satisfação psicológica, emocional e até para o mercado (já que o sucesso no mercado de um produto e a ativação de um segmento está diretamente ligado a geração de necessidade, a parte emocional do consumidor)? Não exatamente é a resposta.


Não é possível restringir o número de distribuições para o usuário comum, isso não seria bom, isso feriria seriamente os princípios do software livre, atingiria a liberdade que é o norte de toda e qualquer comunidade free software, que garante muitos benefícios para todos e até para os “prejudicados” por tantas possibilidades de escolhas.


As teorias do Doutor Barry Schwartz não são inimigas da liberdade e dos ideais do software livre. Se estas características humana estiverem certas seria um erro ignorar. As empresas e as comunidades que estão voltadas para o usuário final, as pessoas comuns, devem considerar como alerta e até uma ajuda para criar oportunidades de mudar as políticas de desenvolvimento, de marketing e de como apresentar seu produto para seu público.


Bibliografia:
- A Revolução do Software Livre. Vários autores. Comunidade Sol.
- O Paradoxo da Escolha. Por que menos é mais. SCHWARTZ, Barry. Editora Girafa.
- Scientific American Brasil. Artigo: A tirania das escolhas. SCHWARTZ, Barry. Edição 24 (05/2004).


Imagem destacada: Alan Levine (cogdogblog) / Creative Commons / http://www.flickr.com/photos/cogdog/

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Pwn2Own: Firefox, IE e Safari invadidos. Chrome saiu vencedor… sem ao menos uma tentativa de invasão

A notícia que saiu em vários meios foi que o Chrome era o grande vencedor da competição Pwn2Own. Mas um "pequeno detalhe" esqueceram de contar. O G1 mostrou uma reportagem sobre o assunto:
http://bit.ly/beeBcz


O que aconteceu foi o seguinte. Todos os navegadores que foi tentado a invasão foram invadidos. Mas o Chrome? Não tinha resistido à invasão? Não. Nem houve tentativa, então ele "ganhou" o título sem mesmo alguém ter tentado.


De acordo com o texto de Altieres Rohr, especialista de segurança, existia especialistas que iriam usar brechas de segurança do Google Chrome para realizar a invasão, mas misteriosamente desistiram e não houve ninguém disposto à realizar a façanha.


Até o resultado do Mozilla Firefox, não pode ser mais considerado "atual", pois a brecha que usaram não existe mais.


Até mesmo o Symbian resistiu ao concurso, pois igualmente ao navegador do Google, não houve interesse para explorar qualquer falha (mesmo o sistema sendo líder no segmento).


Sem uma reformulação da competição, colocando em igualdade de condições, então, a Pwn2Own ficará desacreditada, não acham?


Imagem destacada: OneBlog por Chromeble

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Cozido de sapo, Linux e o novo visual do Ubuntu [atualizado 4/12]

"Coloque um sapo na água fervendo e ele pulará para sair. Agora coloque ele na água fria e aqueça. O sapo irá ficar na água até morrer cozido." Essa receita de sapo cozido, ou melhor, essa parábola, vi no filme Dante's Peak, e foi idealizada, em seus livros, por Peter Senge, diretor da Sloan School of Manager do MIT, fundador da Society for Organizational Learning e referência no mundo corporativo.


Já expliquei aqui que considerar o costume é um fator primordial para qualquer investida, bem como considerar a sensação de novidade. Unindo esses dois fatores, costume-novidade, pode gerar resultados imprevistos se não haver planejamento adequado. Um marketing que vise transformar a novidade em necessidade tira qualquer entrave do fator costume.


Por exemplo, o Ubuntu é um dos sistemas mais simples de usar, mais amigáveis, que tem inclusive um método de instalação de programa dos mais fáceis que existem. Mas é comum crítica do "marinheiro de primeira viagem", de quem nunca usou.


A Apple, com seu Mac OS X, tem igualmente um sistema diferente, com conceitos diferente do detentor de mercado, o Windows, mas a Apple consegue criar uma necessidade nos seus clientes, consegue fazer o diferente ser desejado. As dificuldades de mudança são parcialmente esquecidas pelo brilho do desejo (esse fator faz a curva de demanda ser alterada, típica de "produtos de luxo").


A relação com a parábola do sapo, é que uma mudança gradativa, pode ser boa, para não criar entraves, para ser melhor aceito pelo público, no caso da usabilidade, e o aprendizado ser suave. A Apple, claro, consegue criar necessidades, criando desejos, então consegue compensar, mas quantas empresas hoje conseguem ter um departamento de marketing genial e um chairman como Jobs?


No caso do novo visual do Ubuntu, não sei se a apresentação da nova identidade visual foi acertada. Se por um lado vai ser bom uma versão de suporte estendido ter um visual remodelado, já que esse tipo de versão é que é vendida de fábrica em computadores como da Dell, vai ser ruim para o impacto do visual modificado que virá inevitavelmente quando sair o Gnome 3, com a versão 10.10 do sistema da Canonical (nota de atualização: Ubuntu 10.10 não veio com o Gnome 3).


Na questão de estética, a mudança gradual, em princípio, não é tão benéfica. É como a água do sapo esquentando aos poucos. No final, as mudanças na identidade visual seriam muito mais notadas e desejadas com uma mudança brusca.


Comentário de atualização: Canonical anunciou que será padrão a interface Unity, que vem com o Ubuntu Netbook Remix. Talvez agora o Ubuntu já chegue com a "água fervendo". Será?


Imagem destacada: James Lee (jronaldlee) / Creative Commons / http://www.flickr.com/people/jronaldlee

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