Sapiens Parque, muito além do Vale do Silício, e o projeto de país

Florianópolis ao contrário do que muitos pensam não vive de turismo, mas sim de tecnologia¹. O setor da informática já é a base da economia há muitos anos e um dos principais empregadores da cidade. Florianópolis também tem muitas universidades no próprio município e nas redondezas, um índice educacional bem acima da média brasileira, incubadoras tecnológicas referência no país e pesquisas importantíssimas na área desde os anos 80. Por esses e por outros motivos a cidade foi escolhida como sede do Sapiens Parque².


Desde de que eu estava no ensino médio (faz tempo isso) eu ouço falar no Sapiens Parque. O projeto do parque era algo inovador, que pretendia ir muito além do Vale do Silício (pretensioso, eu sei), sendo não somente um parque tecnológico, mas um centro de cultura, ciências, arte e um destaque urbanístico e ecológico.


Anos e anos desde sua idealização no ano 2000, pela Fundação CERTI, até sair do papel, em 2005, com a formação de parcerias, e só em 2009, saiu a licença ambiental de expansão, que abriu caminho para o projeto viário, para o projeto dos primeiros centros de tecnologia e empresarial, totalizando 15 mil m², dos 4,5 milhões de m² de área reservada, como o centro de pesquisas da Petrobrás-UFSC (INPetro) e o centro de referência em farmacologia e até a Ferrari Drive Academy (ainda nada definido), da escuderia Ferrari.


O Sapiens Parque arrecadou em impostos mais de 1 bilhão só na fase de implementação, e com investimentos de mais de 2 bilhões nas próximas décadas, com parcerias com empresas de renome nacional e internacional, como Petrobrás, Datasul, SunTech, Ferrari e outras que virão, a arrecadação será astronômica; as consequências também serão notáveis, como melhor qualidade de vida, geração de emprego de alta especialidade e renda, gerando melhorias em toda região.



Eu fico surpreso que o Sapiens Parque está saindo de maneira rápida. Um projeto tão grandioso não é de fácil implementação, e um pouco mais de uma década já vemos os primeiros prédios na gigantesca área de 4,5 milhões de metros quadrados no norte de Florianópolis. É só vermos como é difícil fazer projeto para o futuro no Brasil e como é difícil de ser empreendedor, consequência da falta de vontade política, falta de investimentos, excesso de burocracia, etc.


Para ter uma ideia, veja o caso da H2Ocean. Todos sabemos que burocracia é necessário. Não há planejamento e administração sem ela, mas o excesso no Brasil faz o nome "burocracia" ganhar má fama e ser chamada de "burrocracia".


A Aquamare, ou H2Ocen (nome do produto), seria uma empresa brasileira revolucionária, fazendo água mineral do mar (água dessalinizada não é mineral) a partir de nanotecnologia. Eles investiram 10 milhões e tentaram por anos começar o negócio no Brasil. Em 4 anos o que conseguiram foi correria por busca de papelada e respostas vagas da ANVISA.


Nos EUA a empresa conseguiu registro em 3 horas e análise da água pelo FDA em 15 dias. Em mais ou menos 3 meses já estavam ativos nos Estados Unidos da América.


Nossos políticos e gestores parecem não ligar muito para empresas privadas, preferem dar importância a investimentos estratégicos estatais, certo? Nada disso. As pesquisas no país, que são estratégicas e que gerariam os principais trunfos para a tão importante balança comercial - claro, não estou contando com os certos benefícios sociais -, parecem que igualmente foram deixadas de lado.


Não estou falando nem dos míseros 4% do PIB (acredite, já foi pior) ou pouco mais de 3,5% do orçamento investidos na educação - para ter uma ideia, a Coreia do Sul investe quase 20% do orçamento e a ONU recomenda no mínimo 8% do PIB - ou nos 20 bilhões que o governo deixou de investir ou mesmo a diminuição de mais de 1 bilhões no próximo orçamento, estou só falando o dinheiro direto para pesquisas. Acredite, ano passado o orçamento de ridículos 6 bilhões caiu 1,2 bilhão (!).


É por esse e outros motivos que projetos como o Sapiens Parque parecem estar nadando contra a correnteza, levando rasteira - desta vez pelo menos o governo estadual não está como inimigo - desde a fundação, que está na educação básica, até falta de incentivos mínimos como isenção pesada de impostos - como fazem com certas empresas multinacionais.


Você também acha que um projeto de país onde o que faz ele ter futuro (educação, ciência, tecnologia e pesquisas) é deixado em segundo plano não é um projeto viável? Ou só eu penso assim?


(1) Veja reportagem da BBC aqui:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/click_online/8284704.stm


(2) Site oficial:
http://www.sapiensparque.com.br


Imagens: divulgação Sapiens Parque

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