Prefeitura de Maringá troca Linux por Windows para economizar… como?

Li esses dias no BR-Linux e me pareceu estranho, não é verdade?, que a prefeitura de Maringá tenha trocado Linux e toda a estrutura de software livre pelo Windows - servidores e estações de trabalho - e ferramentas proprietárias da Microsoft, enquanto outros órgãos estatais e empresas privadas estejam trocando a plataforma Windows por Linux justamente para economizar e ter um ganho de produtividade. Como isso pode acontecer?


A pergunta que veio a mente era "seria mais um caso de lobby de uma grande empresa?". Eu diria que não. E ainda afirmo que o provável é que realmente economizaram (não assuste-se. Basta ler o texto).


A resposta parece obvia. Cada caso é um caso... será? Isso é verdade realmente, mas muitas vezes isso é tomado como verdade para esconder uma incompetência no planejamento de TI.


Em primeiro lugar, a matemática é uma matéria exata, os números não mentem, mas as pessoas sim mentem, ou melhor, conseguem criar uma realidade, um contexto para os números.


Pegamos, por exemplo, o TCO, que é o custo total de propriedade. É essencial para um projeto de TI ter uma base do TCO para sabermos não somente o custo do software e do hardware num primeiro momento, mas de toda a estrutura para manter o conjunto funcionando, como suporte, pessoal, upgrades, consumo energético, etc. É vital para um planejamento.


A Microsoft, como outras empresas, trata esses dados como absolutos, como "fatos". Mas será que são? Certamente não. Caso fosse algo exato, invariável, absoluto, não teríamos problemas problemas como o que veremos a seguir:





[caption id="attachment_216" align="aligncenter" width="575" caption="De acordo com a Microsoft..."][/caption]

http://www.linuxmagazine.com.br/lm/noticia/1547


[caption id="attachment_217" align="aligncenter" width="608" caption="De acordo com outras pesquisas..."][/caption]

Há tantas variações no cenário que fica difícil digerir tudo. Mas pense bem. Só é variável até certo ponto. A Microsoft e outras empresas privadas que atuam no setor acusam o software livre em um ponto, que afeta toda a conta. Se vermos qualquer documento, obviamente nunca alguém em condições mentais perfeitas irá dizer que o custo de licença do software livre, de maneira geral, é mais caro, pois não é. Ainda por cima o custo de licenças é sabidamente elevadíssimo! Então o que fazem é acertar a credibilidade, alegando "instabilidade" e custo de suporte, pois há falta de capacitação.


A prefeitura de Maringá, na troca de uma estrutura livre por uma proprietária, alegou instabilidade. Ora, instabilidade, se pensarmos de maneira genérica, não se pode alegar quanto ao Linux, que é sinônimo de estabilidade, sendo usado principalmente, até, em missões críticas (Linux domina a computação de alto desempenho). As principais ferramentas usadas também são conhecidas, e usadas em outros órgãos estaduais, até federais, não havendo instabilidades, muito pelo contrário.


Por que acontece discrepâncias como essas? Tudo aponta, num primeiro momento, para o de sempre: falta de planejamento no projeto.
Pra ter uma ideia, de acordo com um press¹ da IBM "32% dos projetos não se alinham com os objetivos da companhia e que 39% dos projetos estão acima do orçamento". Isso demonstra como é comum uma falta de planejamento eficiente.


A prefeitura de Maringá, pela notícia, contratou a Teletex, que conseguiu sem dúvidas reduzir custos. Quando se tem planejamento, se consegue isso, mesmo usando uma plataforma sabidamente mais cara. A Teletex é parceira da Microsoft, por isso optaram pelo Windows Server, Windows nas estações e ferramentas Microsoft.


Se vemos os problemas que foram ditos, como instabilidades, falta de padronização, falta de suporte, alto custo de manutenção, fica claro que estava um tanto perdida a gestão, então qualquer empresa que fizesse um planejamento e tivesse experiência nas suas próprias soluções, economizaria e aumentaria o desempenho de tudo.




Um possível grande erro


Para ter contratado uma empresa, certamente a prefeitura ou não tinha mão-de-obra especializada. Contratando a Teletex eles resolveram o problema de TI. Mas e o planejamento de cenários?


Contratando a Teletex e não tendo mão-de-obra própria, funcionários públicos capacitados, como acontece em outras prefeituras, no estado do Paraná e no governo federal, ou mesmo se tendo, não treinando eles (acontece muito pelo Brasil. Muitos planos de governos acham que os funcionários são máquinas, que tem que saber tudo. Não sabem que funcionários são peças-chave, que tem que investir para ter retorno. Em empresas privadas sérias funciona assim), ficaram dependentes de licitações periódicas.


Agora terão, como manda a lei, que fazer licitações de tempos em tempos para prover o serviço de TI. Mas o custo de mudanças de toda a estrutura é muito caro, ou seja, a partir de agora é provável que fiquem dependentes de uma única tecnologia proprietária, de uma única empresa privada, ou seja, ninguém que propôs a contratação de uma empresa previu isso. Por que não contratar uma empresa capaz de prover um serviço de qualidade com um mínimo de ferramentas livres? Como fizeram órgãos do governo estadual, federal e inúmeras empresas privadas? É possível sim, como já afirmei. Em resumo, caímos na falta de planejamento novamente.




A realidade do software livre no governo


Fiquem com esse vídeo (várias partes) sobre software livre no governo:









(1) IBM. Mitigando riscos durante o Ciclo de Vida de entrega de Software. Agosto de 2009.

Um comentário:

  1. [...] que parece estar ocorrendo é o que eu já disse no caso de Maringá. Há uma falta de visão de cenários futuros, uma falta de planejamento político-estratégico que [...]

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