A personalidade do ano de 2010

Tinha falado que só ia postar em 2011, mas tecnicamente já é 2011 em vários lugares do mundo =P De qualquer forma, vai um texto do que eu tinha que dizer antes que 2010 acabe.



A personalidade do ano de 2010


A revista Time escolheu Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e a revista Rolling Stone intaliana escolheu Julian Assange, criador do Wikileaks, como o homem do ano. Na minha opinião a "personalidade" do ano não é uma pessoa, mas uma ferramenta que possibilitou vários feitos pelo ano, até mesmo o sucesso e a notoriedade de pessoas como Zuckerberg e Assange. Claro, estou falando da internet.



Redes de informação


Nesse último ano consolidou-se mais no dia-a-dia as mídias sociais[1]. Com o Facebook, Orkut, Twitter e companhia o mundo, que já estava pequeno pela globalização ocasionada pelos modernos meios de transporte e os velhos meios de comunicação, ficou ainda menor. Falar com alguém ou obter informações de outros lugares, dos mais distantes, ficou tão fácil quando abrir a porta da geladeira.


Hoje as mídias sociais já são o principal motivo de entrar na internet. E engana-se quem acha que é uma perda de tempo. Relacionamento social, interagir com o diferente, nunca foi algo inútil. Hoje as mídias sociais são tão relevantes no contexto político que muitos países bloqueiam o YouTube, Facebook, Twitter. Isso acontece pois para um governo anti-democrático ou com um pé na ditadura ou no populismo[2] é muito ruim a interação social, o trânsito de informações.


Podemos citar o exemplo do blogueiro Hosein Derakhshan, que fez surgir uma onda de blogs políticos, contestadores e independentes no Irã. Para o povo é muito bom entrar em mares nunca navegados, mas para o governo é tão ruim que Derakhshan tornou-se perigoso, tão perigoso quanto o Twitter e o YouTube, que foi proibido na China ano passado às vésperas do aniversário de 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial.



A turva democracia sendo clarificada


Outro acontecimento que a internet possibilitou foi as revelações do Wikileaks, fundado por Julian Assange. Talvez sem o aparato descentralizante que faz pulverizar informações pelo mundo de forma rápida, dentro de um ambiente que possibilita fugir das garras de grandes poderes, não teríamos as revelações disponíveis do Wikileaks.


Com os dados que foram mostrados e estão aparecendo a todo momento vemos como é pobre o jogo de poderes. Vimos como os EUA tentaram esconder do mundo assassinatos de civis feito por seus militares nas suas guerras insanas[3]. Vimos que o Tio Sam junto com a China sabotaram o COP-15, uma reunião que tenta salvar o mundo dos efeitos maléficos das atitudes irresponsáveis com o planeta[4]. Percebemos como funciona a política externa do grande irmão do norte, que coloca interesses corporativos acima da vida humana, quando "lava as mãos" no caso Pfizer. A empresa farmacêutica contou com a diplomacia para conspirar junto com autoridades da Nigéria no chocante caso de mortes de crianças causadas por testes de remédios na África[5].


Com os dados da entidade de Assange também agora sabemos não só de algumas facetas estadunidense, mas também de importante membros do Estado brasileiro, como nosso Ministro da Defesa, que de acordo com diplomatas, está de acordo com interesses americanos. Até agora sabemos que o candidato José Serra, do PSDB, falava uma coisa e fazia, por trás, outra. Serra já estava em comunicação, como mostra dados do Wikileaks, com empresas dos EUA para fazer negócios na exploração de petróleo, modificando, tornando mais neoliberal todo o negócio, de acordo com os interesses de corporações americanas[6].



Internet tornando possível se libertar das correntes das grandes forças


Pegamos o caso Wikileaks. Quando os documentos secretos da diplomacia americana emergiu ao conhecimento público, logo podemos perceber as garras do governo e das grandes corporações. Mastercard, Visa, PayPal logo sabotaram os meios de doações ao site de Assange. A Amazon expulsou de seus servidores, a EveryDNS tirou o DNS e pegou o endereço do site. O novo servidor hospedado na França, pertencente à OVH também fecha as portas à organização. O banco suiço PostFinance confiscou o dinheiro doado e até a Apple retirou o aplicativo do Wikileaks da AppStore. E apesar de tudo isso, não conseguiram parar o site, muito pelo contrário, só conseguiram inflamar pessoas para realizar ataques virtuais de protestos contra todas as entidades e empresas envolvidas com toda a sujeira.


Em um caso que aconteceu esse ano aqui em Santa Catarina, podemos ver que graças à internet conseguimos saber a verdade. Aqui um dos herdeiros (menor de idade) da RBS, gigantesco grupo de comunicação do sul do país, filiado à Rede Globo, e donos dos principais jornais impressos e emissoras de rádio, estuprou, com ajuda de um amigo filho de uma autoridade de Florianópolis, uma menina. O grande grupo RBS e a Globo ignoraram o fato. Até mesmo o comentarista da emissora, Luiz Carlos Prates, famoso por suas opiniões absurdas, sua tentativa de punir severamente menores infratores e seu saudosismo à ditadura, nada falou. Só graças a um efeito viral em redes sociais, blogs (como o "Tijoladas do Mosquito", que fez a cômica campanha "Estupro Nem Pensar", satirizando a campanha da RBS contra o crack ["Crack Nem Pensar]) todos soubemos do ocorrido, e vimos como terminam as coisas para a elite e os poderosos. O menor que estuprou a menina pegou 6 meses de serviços comunitários e tratamento psicológico (sou a favor da Justiça Restaurativa, mas o que é para se pensar é "se fosse alguém da periferia?").



A internet mudando o rumo das eleições


As eleições quase mudaram de rumo "graças" à internet. As pesquisas diziam que Dilma Rousseff ganharia com folga no primeiro turno, mas "graças" à internet isso não ocorreu.


Com uma onda criminosa de boatos uma parte anti-democrática da população (quem tenta mudar o rumo das eleições de maneira desonesta está agindo de maneira criminosa e anti-democrática) Dilma não ganhou no primeiro turno e possibilitou uma grande subida do segundo candidato.



Vendo o Brasil como ele é


Nesse ano, com a internet, vimos como é um grande parte dos brasileiros. Nas eleições, como disse antes, vimos que muitos são anti-democráticos e tentam fazer sua vontade acima da vontade da maioria. Vimos também o quão preconceituoso é nosso país.


Apesar de Dilma sair vitoriosa mesmo sem os votos do nordeste e norte do país uma onda medieval, criminosa e irracional contra as pessoas do Norte e principalmente do Nordeste tomou conta da web.


Pessoas com estudo, com boa família, e trabalhando ou estudando em áreas que lidam diretamente com o ser humano mostraram-se como são realmente. Além dos lamentáveis xingamentos, que entrar na lei de racismo, praticaram vários crimes previsto no Código Penal, como injúria e incitação ao crime. Vimos muitos dizendo que "nordestino bom é nordestino morto".


E isso é algo novo no país? Não. Sabidamente o Brasil é preconceituoso e elitista desde sempre. Só não assumimos isso publicamente. Tentamos nos travestir de "país da tolerância". E graças a rede podemos ver a verdadeira face dessas terras tupiniquins[7].



Para 2011


Espero que em 2011 a web ainda seja território mais neuro que existe. Como todos sabemos a internet é controlada pelos EUA, pelo Departamento de Comércio estadunidense, e depois do Ato Patriota, proposto no governo Bush filho, sabemos que o governo pode realizar manobras típicas de ditaduras, interferindo na neutralidade e liberdade da rede mundial.


Já houve proposta de fazer a internet pertencer à ONU, livrando do domínio de um só país. Mas acho que isso tão cedo não acontecerá. Só resta torcer para uma internet livre.


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Informações:


[1] No texto, entenda não só no sentido estrito de mídias sociais como amplo também.
[2] Ver populismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Populismo
[3] Último Segundo: http://bit.ly/frY2Ro (link encurtado por extrapolar o leiaute[8])
[4] Opera Mundi: http://operamundi.uol.com.br/blog/operaleaks/wikileaks-eua-e-china-sabotaram-em-conjunto-cop-15-revela-documento/
[5] Opera Mundi: http://bit.ly/gTOL56 (link encurtado por extrapolar o leiaute[8])
[6] Opera Mundi: http://bit.ly/hJ6x8p (link encurtado por extrapolar o leiaute[8])
[7] Veja também o artigo no Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/politica/as-eleicoes-e-o-preconceito-contra-o-nordeste
[8] Leiaute é a palavra em português para layout: http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=leiaute

Imagem destacada: Paul Downey / http://www.flickr.com/photos/psd/2731067095/ / Creative Commons

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