Coltan e os computadores e smartphones feitos com morte

Em 21 de abril de 2011 a Skynet, uma inteligência artificial sem igual ganha autonomia. Logo ela todo conta dos computadores mundiais, até dos que controlam os milhares mísseis atômicos, e livra-se de seus potenciais inimigos, os humanos. O Dia do Julgamento chega e logo a humanidade como conhecemos acaba.


A partir do fatídico dia a humanidade entra em conflito com as Máquinas. E não são simples máquinas. São Exterminadores, feitos de metais e IA programada para matar. São quase indestrutíveis.

Das várias estratégias para ganhar a Guerra é conseguir domínio sobre as fontes que tornam as Máquinas tão poderosas. Enquanto uns voltam ao passado, através de máquinas do tempo, para tentar impedir os eventos que culminaram na criação da Skynet, outros tentam resistir no presente, destruindo os Exterminadores, dominando territórios, usinas de energia e um dos grandes responsáveis pelo poder dos Exterminadores, o que tornam tão letais, o Coltan.

Coltan é uma liga de metálica, união de columbita e tantalita. A liga tem ultrarresistência mecânica, térmica, eletromagnética e corrosiva. O nióbio, mineral extraído da columbita, ainda é supercondutor, excelente para circuitos dos computadores dos Exterminadores.
Coltan

Pelo motivos citados o Coltan é tão necessários para as Máquinas. Os Exterminadores não só voltaram ao passado para tentar matar John Connor, o grande líder que libertou humanos dos campos de trabalhos forçados e deu esperança à humanidade no pós-apocalipse, mas voltaram para tentar garantir no futuro o domínio de setores estratégicos, como as fontes de energia e do Coltan.

Sem dúvidas muitos sabem dessa história e só coloquei pra, quem sabe, chamar a atenção de muitos fãs de Terminator. Mas será que sabem da importância do Coltan na vida real?

Coltan na África da vida real


Pode-se perceber que o Coltan é importantíssimo, mas não só na ficção. Coltan é um liga vital na tecnologia (pelo menos é isso que a indústria acha). A liga e seus derivados estão em nossos computadores, nossos smartphones, nossas TV de alta resolução. A minha e a sua diversão não seria possível sem a columbita, a tantalita, o nióbio.



Infelizmente uma das grandes fontes da liga metálica está num lugar destruído politicamente e socialmente. Essa tal região primeiro foi destruída pela colonização europeia. Na Conferência de Berlim, em 1884, amigos foram separados, inimigos históricos foram colocados no mesmo local, o povo foi escravizado, as riquezas foram roubadas. Como muita desgraça nunca vem sozinha, veio a Guerra Fria para acabar de vez com a região. União Soviética e os Estados Unidos da América financiavam golpes consecutivos feitos por qualquer um que não tivesse receito de guerra. Tudo feito em nome de suas ideologias. Quem achava que o que estava destruído por séculos de imperialismo não poderia ficar pior errou feio.

As grandes minas de Coltan estão em Ruanda, Uganda e principalmente na República Democrática do Congo, que de democrática não tem nada. As minas estão numa região onde há guerras, pobreza e desgraça desde quando as potências imperialistas tocaram nos pés na região.

Uma fonte de riquezas que poderia mudar a vida das pessoas realmente fez mudar tudo por lá. Todos devem saber que onde há riqueza, desestruturação social, ruína econômica e instabilidades políticas há uma avalanche de graves problemas. No Congo não é diferente e lá a guerra não é contra as Máquinas, mas em favor delas, em nome do lucro privado e para a manutenção do status de muitos no “ocidente civilizado”.
Criança em mina no Congo
As minas de Coltan, as mesmas que financiaram a Segunda Guerra do Congo que ocorreu até 2003, onde mais 4 milhões de pessoas morreram, hoje serve de campo de trabalho escravo, de muito trabalho infantil e de violentos conflitos em busca do controle das minas que tem um valor estratégico maior que do ouro e diamante.

Celulares e computadores de sangue


Não bastasse a China e outros países asiáticos fabricar produtos tecnológicos a base de sangue da sua própria população, no Congo a coisa anda pelo mesmo caminho, e ainda pior.

Empresas como Intel, AMD, Motorola, HP, Dell, Sony, Lucent, Hitachi, Apple, Nokia e muito outras, compram o mineral da região congolesa. Nokia, inclusive, após o documentário dinamarquês “Sangue no celular” estrear em 2010, a empresa filandesa parceira da Microsoft tentou culpar seus fornecedores, fitando sua responsabilidade. A empresa, inclusive, não informa quais seus fornecedores em seu site oficial.
Mina no Congo
A falta de preocupação de empresas norte americanas e europeias com a humanidade ficou em um nível tão alarmantes que as críticas de alguns grupos de Direitos Humanos - que são chamados de chatos por muitos - estavam atrapalhando a imagem de dezenas de grupos corporativos. Intel, por exemplo, anunciou ano passado que Coltan, Tungstênio, Ouro e outros minerais que tem fornecedores nada éticos, iriam sair da linha de produção.

Apple falou a mesma coisa, na mesma época, mas seu iPhone 4S está cheio de Coltan, cheio de sangue, cheio de violência, de estupro, de humilhações, de homicídios em massa e baseado em trabalho infantil e escravo. Eles prometeram então que a empresa estaria livre de mineiras de sangue até 2013. Sera que vão cumprir?

Fornecedores não ligam; fabricantes não ligam; você não liga


Homicídios, violência, estupros, escravidão, perda da dignidade humana é a base da tecnologia de hoje. Congo é só mais um exemplo de “os fins justificam os meios”.

Os fornecedores não ligam para as pessoas, mas apenas para o lucro; as empresas fabricantes fingem que não sabem de onde vem a matéria-prima, em nome dos constantes lucros; as pessoas não querem saber e não ligam de onde vem seus equipamentos, pois o status e o consumismo vem em primeiro lugar. O pior ainda acontece com quem liga, que nada pode fazer por culpa desse ciclo vicioso. Será que algum dia vamos poder comprar um equipamento eletrônico livre de mortes e atrocidades?

O que mais impressiona é que somente na ficção a dignidade das pessoas importa. O que acontece no Congo é pior do que a Skynet fez, mas só lá é visto com uma atrocidade que vale a pena lutar contra.

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Fontes:
BBC News; CNN; The Guardian; Okay Africa.

Imagens:
Enough Project; Liberdad Digital; Bad Coltran.

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