Nintendo sai do Brasil e culpa impostos. Eles são culpados?

Nintendo está de malas prontas para sair do Brasil e colocou um culpado pelo fracasso na empreitada brasileira, a alta carga tributária. Segundo Bill van Zyll, diretor da Nintendo para a América Latina, "O Brasil é um mercado importante para a Nintendo e lar de muitos fãs apaixonados mas, infelizmente, desafios no ambiente local de negócios fizeram nosso modelo de distribuição atual no país insustentável" [...] "desafios incluem as altas tarifas sobre importação que se aplicam ao nosso setor e a nossa decisão de não ter uma operação de fabricação local". Mas seria esse realmente o problema?

Alta carga tributária


Ao contrário do que muitos dizem, o Brasil não tem a maior carga tributário do mundo e nem está entre as maiores. Não, não estou louco. Quando você lê ou ouve nos jornais quase sempre a afirmação está incompleta.

Carga tributária sobre o PIB

O grande problema do Brasil não está na carga tributária, mas sim na concentração dos tributos no consumo. Um produto ou serviço fica caro aqui porque os impostos, as taxas e contribuições se concentram no começo da cadeia produtiva e chega até o consumidor final. Para ter uma ideia, 45% do custo de uma TV são impostos, que correspondem também 72% nos jogos de videogame.

Você pode reclamar do Imposto de Renda, mas saiba que aqui o imposto é baixíssimo, tendo uma alíquota máxima de 27,5%, enquanto passa de 40% nos EUA e em países nórdicos passa de 50%.


Assim é a realidade brasileira e dos países subdesenvolvidos. Os tributos sobre renda, lucro e propriedade são baixos, deixando tudo concentrado no consumo, diferentemente dos países desenvolvidos, que concentra seus tributos na renda, lucro e propriedade.



Esse foco de impostos na renda, lucro e propriedade dos países desenvolvidos faz com que os mais pobres consigam ter uma melhor qualidade de vida, pois os produtos de consumo e serviços ficam mais baratos. Impostos sobre o consumo alto tem relação direta com desigualdade social.


No Brasil esses impostos levam 40% da renda de quem ganha o Bolsa Família, por exemplo. Uma pessoa que ganha um salário mínimo acaba tendo que pagar o mesmo imposto de quem ganha R$ 80 mil por mês quando vai comprar sua cesta básica, o que é um absurdo. A regra do "quem tem mais capacidade contributiva paga mais em razão dos impostos impactarem menos na sua qualidade de vida" acaba sendo substituída por "quem tem menos paga igual a quem tem mais, então se você é pobre azar o seu".

Mercado gigante e lucro exorbitante


Sim, a Nintendo tem razão e o mercado brasileiro é complicado pois os tributos sobre consumo são de deixar qualquer pessoa louca e a burocracia completa o manicômio que é o mercado interno.

Mas o mercado consumidor brasileiro é grande com um potencial ainda maior e é por isso que o Brasil é visado por todos. Das 500 maiores empresas do mundo o Brasil tem quase todas em seu território.

No mundo dos games nosso mercado aparece na frente de Reino Unido e Alemanha e é esse o motivo da Sony, Microsoft, Valve (Steam) e EA (Origin) investirem pesadamente, inclusive com a localização de títulos (dublagens dos jogos e tradução da interface). Apesar do gasto o retorno é considerável.

No segmento automobilístico, para ter uma noção, apesar dos impostos sobre o consumo, a margem de lucro é 3 vezes maior do que o resto do mundo! E as vendas não consideráveis e o Brasil ocupada a 4ª colocação nas vendas mundiais, perdendo apenas para China, EUA e Japão.

A maior crise mundial da história pode sim ter prejudicado o mercado interno brasileiro, crescemos menos do que deveríamos, mas ainda assim nosso mercado consumidor é gigantesco.



O problema da Nintendo é outro


A Nintendo não está saindo do Brasil em razão dos impostos ou burocracia. Nintendo esteve aqui até quando nosso economia era fraca e o caos reinava no mercado interno. O problema da Nintendo aqui é só um, a falta de mercado para seus produtos.

Nintendo está em crise não só no Brasil, mas no mundo. Ela não consegue competir com Sony e Microsoft e o WiiU está morrendo. Sua principal fonte de lucro, o mercado portátil, não é mais o mesmo e ela se vê perdendo terreno para os smartphones. A UOL Jogos fez uma reportagem sobre a crise que a Nintendo vive: http://jogos.uol.com.br/ultimas-noticias/2014/01/21/maior-empresa-de-games-do-mundo-nintendo-enfrenta-crise-uol-jogos-explica.htm

Sem prolongamentos, a Nintendo está saindo do Brasil por um só motivo, sua crise existencial. O mundo não quer mais Nintendo e o Brasil tomou o mesmo caminho. Não vale mais a pena nosso mercado somente para a Nintendo, pois o retorno é baixo, muito aquém do esforço feito.



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